Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço
Tabagismo atinge 19% dos brasileiros de 16 a 24 anos; psicóloga alerta que nicotina altera circuitos cerebrais

Especialistas alertam riscos psicológicos e físicos do tabagismo durante a juventude. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil – 01.12.2023
A população jovem no Brasil é hoje a que mais consome derivados de tabaco no país, comportamento que, de acordo com especialistas, pode estar associado a questões de saúde mental.
Dados do levantamento “O Brasileiro e o Câncer”, realizado pela consultoria Nexus em parceria com o A.C.Camargo Cancer Center, apontam que 19% dos jovens entre 16 e 24 anos declaram ser fumantes ativos de cigarros convencionais ou dispositivos eletrônicos (vapes).
Para a psicóloga Alessandra Araújo, a busca por pertencimento, o desejo de se encaixar e a urgência por um alívio rápido para o estresse da juventude e vida adulta são alguns dos fatores que levam os jovens ao tabagismo. O ato de fumar, segundo a especialista, torna-se um “ritual de passagem” e um “marcador de identidade”, sendo interpretado como uma forma de evitar a rejeição social.
“Ao mesmo tempo, como os jovens enfrentam uma sobrecarga imensa de ansiedade acadêmica e social, o cérebro aprende a recorrer ao cigarro como um atalho de automedicação. Isso atrofia a capacidade natural de aprender a lidar com as próprias frustrações sem o auxílio de uma substância química”, aponta a psicóloga.
Araújo alerta que, do ponto de vista neurológico, o tabagismo crônico na juventude está fortemente associado a um risco elevado de desenvolvimento de quadros graves de ansiedade e depressão na vida adulta. Além disso, a nicotina altera circuitos cerebrais que ainda estão em pleno desenvolvimento, especialmente no córtex pré-frontal, área responsável pelo controle de impulsos e pela tomada de decisões.
“Como as consequências mais graves do consumo só aparecem a longo prazo, falta ao jovem a urgência interna para abrir mão daquilo que ele ainda enxerga, de forma distorcida, como seu principal porto seguro emocional”, ressalta Araújo.
Esse cenário reflete-se diretamente nos dados do levantamento: a proporção de fumantes entre 16 e 24 anos supera a média nacional (17%) e coloca a juventude no topo do ranking do tabagismo ativo no Brasil, à frente dos adultos de 25 a 40 anos (15%), de 41 a 59 anos (17%) e dos idosos acima de 60 anos (16%).
A intersecção entre o tabagismo e a saúde mental jovem também traz impactos para a saúde física. O cardiologista Álvaro Paiva relata receber, em seu consultório, frequentes queixas de jovens sobre palpitações, sintoma que pode estar associado tanto a crises de ansiedade quanto ao consumo de nicotina.
“Muitas vezes, os pacientes não conseguem diferenciar o que é sintoma de estresse e ansiedade do que é efeito do uso de nicotina via cigarro ou vape. Esse é um ponto de extrema atenção”, alerta o médico.
O especialista explica que, ao fumar, o efeito imediato da nicotina envolve a constrição dos vasos sanguíneos, a aceleração dos batimentos e a elevação da pressão arterial. Ademais, tanto a nicotina quanto as substâncias tóxicas presentes na fumaça do cigarro e no aerossol do vape geram estresse oxidativo e inflamação vascular.
“Essas alterações, quando repetidas diariamente por vários anos, acabam por gerar rigidez arterial e lesões na camada interna dos vasos, o que pode originar quadros de hipertensão e aterosclerose. A longo prazo, a evolução dessas condições pode culminar em um AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou infarto”, detalha Paiva.
Apesar dos riscos, o cardiologista pondera que os danos podem ser mitigados. Ao interromper o consumo de tabaco, o organismo demonstra capacidade de recuperação progressiva.
“Nos primeiros dias sem a substância, já observamos a redução da pressão arterial e da frequência cardíaca, além da diminuição da inflamação e dos níveis de monóxido de carbono no sangue. Em poucas semanas, há melhora na circulação e na função pulmonar. Testes funcionais, como o teste cardiopulmonar do exercício, já mostram ganhos na capacidade aeróbica”, afirma o médico, destacando que o risco de infarto cai pela metade em poucos anos e aproxima-se ao de um não fumante após 15 anos de abstinência.
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