Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço
A escassez já é permanente. Falta governo escolher quem será protegido.

Na zona leste de São Paulo, moradores de bairros como Itaquera e Guaianases convivem com rodízio não oficial de abastecimento. A água chega com pressão irregular, obriga a colocação de caixas d’água e, em períodos críticos, compra de caminhões-pipa. Enquanto isso, bairros centrais mantêm fornecimento estável apontando que a diferença não é geográfica: é política.
A água não desapareceu das cidades brasileiras. O que desapareceu sempre foi a disposição de tratá-la como prioridade pública antes de a disputa se tornar aberta.
Um relatório da United Nations University – Institute for Water, Environment and Health (Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, 2026) utilizou o termo falência hídrica para definir a situação da água no planeta. A ideia é a de sociedades passando a consumir não apenas a disponibilidade renovável anual, mas também reservas acumuladas em aquíferos, rios e ecossistemas. A situação deixou de ser um acidente climático e transformou-se em modelo sustentado por adiamento decisório. No Brasil urbano, onde vive cerca de 85% da população, essa leitura ajuda a organizar o cenário diante das torneiras.
A rede existe, os contratos existem, a infraestrutura continua lá. Mesmo precária, a experiência cotidiana do abastecimento tornou-se menos previsível. Em muitos bairros, a água chega com intermitência, variação de pressão e o custo crescente. Isso resulta de um déficit de planejamento, apesar do conhecimento acumulado sobre mananciais, limites e vulnerabilidades. Repete-se, porém, a incapacidade institucional de agir com antecedência e de planejar em longo prazo.
Durante anos, chamou-se esse processo de crise, supondo-se a existência de um intervalo antes do retorno à normalidade. O problema é a perda de estabilidade dessa normalidade enquanto parâmetro, uma vez instalada uma condição permanente de escassez. Esse é o “normal atual”. Em vez de reconhecê-la, governos seguem operando sob a premissa de um episódio passageiro, supostamente resolvível por obras emergenciais, campanhas tardias e recomendações domésticas de economia.
O ponto central reside na insistência do debate público em tratar a água sob uma ótica técnica, embora ela se imponha, cada vez mais, no campo da decisão pública diante de uma escassez produzida pelo consumo sem planejamento. Acumulam-se diagnósticos, dados, referências científicas, faltando, contudo, a escolha explícita de proteger um bem de origem natural como prioridade coletiva.
Quando a água for insuficiente para todos, a pergunta real deixará de ser sobre a falta em si e passará a ser sobre quem ficará sem ela primeiro. Em períodos de estresse hídrico, a escassez tende a manifestar-se na forma de rodízio informal nas áreas com menor infraestrutura e menor capacidade de influência institucional, onde reside a população mais pobre, enquanto regiões centrais preservam maior regularidade no abastecimento.
A segunda questão é o custo gerado pela complexidade e inter-relação entre ações de diversas secretarias e entidades governamentais. Adaptar sistemas hídricos exige investimento público nas três esferas de governo, proteção de mananciais e redução de perdas. Mas, na ausência de decisão, o custo migra para o cotidiano doméstico. Basta observar a multiplicação de soluções improvisadas: caixas d’água ampliadas, bombas, compra de água em caminhões-pipa em períodos críticos. A adaptação deixa de ser planejamento urbano e transforma-se em despesa privada imposta.
E então surge a terceira pergunta: quem pode comprar proteção e quem apenas suporta a precariedade? Condomínios e empreendimentos de alta renda perfuram poços ou criam estruturas próprias de segurança hídrica, enquanto parte significativa da população depende exclusivamente de um serviço intermitente, com margem financeira insuficiente para compensar falhas estruturais. A desigualdade deixa de ser efeito colateral e torna-se mecanismo de funcionamento politicamente naturalizado.
A inação política expressa-se para além da ausência de obras. Manifesta-se na recusa em nomear prioridades, no adiamento de escolhas distributivas e na transferência do risco para as famílias, aprofundando desigualdades preexistentes diante da permissão pública para a privatização da adaptação.
A água existe. Falta determinação governamental — antes de a cidade oficializar a desigualdade pela torneira.
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