Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço
Reunião aconteceu no Cosmódromo de Vostochny, no extremo leste da Rússia, nesta quarta-feira (13/09). Putin afirmou que Rússia vai ajudar Coreia do Norte a construir satélites.
O líder da Coreia do Norte Kim Jong-un, e o presidente da Rússia Vladimir Putin, se encontraram na base de lançamento espacial russa de Vostochny, no extremo leste do país, nesta quarta-feira (13/09). Durante o encontro, Kim disse que está junto de Putin na luta contra o imperialismo.
A conversa durou cerca de quatro horas e Kim segue viagem de volta para Pyongyang.
O líder norte-coreano chegou à Rússia na terça-feira (12/09). Ele viajou de trem até o país. Já nesta quarta, ao lado de Putin, Kim Jong-un disse que as relações com os russos estão entre as prioridades máximas da Coreia do Norte.
Fazendo uma referência ao conflito na Ucrânia, o líder norte-coreano afirmou que apoia as decisões de Putin e que a Rússia está em uma “guerra sagrada” para defender sua a soberania e segurança.
“Tenho certeza de que permaneceremos juntos na luta contra o imperialismo”, disse Kim.
Durante o encontro, Putin indicou que a Rússia vai ajudar a Coreia do Norte a construir satélites. Recentemente, Pyongyang tentou colocar em órbita dois satélites de espionagem, mas ambos falharam.
O Cosmódromo de Vostochny, onde o encontro aconteceu, foi o local de lançamento da missão Luna-25, em agosto. A missão acabou falhando após a colisão do módulo russo contra a Lua.
“É por isso que viemos aqui. O líder da Coreia do Norte mostra grande interesse na engenharia de foguetes, eles também estão tentando desenvolver o espaço”, disse Putin.
A TV estatal russa afirmou que os dois líderes andaram pelas instalações do cosmódromo e que Kim fez uma série de perguntadas detalhadas a Putin.
Questionado por jornalistas sobre uma possível cooperação técnica-militar com a Coreia do Norte, o presidente russo disse que vai discutir todos os tópicos e problemas com Kim Jong-un.
Putin também afirmou que é necessário discutir a cooperação econômica e a situação da região. Rússia e Coreia do Norte fazem fronteira.
Expectativas do Ocidente
Para esta quarta-feira, a expectativa é de que Putin use a reunião para tentar obter armamentos para usar na guerra na Ucrânia, segundo fontes do governo norte-americano ouvidas pela agência de notícias Associated Press.
A Coreia do Norte detém um arsenal de armas desenvolvido de acordo com os padrões soviéticos que poderiam ser utilizados no conflito.
Em troca, Kim poderia obter auxílios para seus setores de energia e alimentação, além de tecnologia para desenvolvimento de armamentos mais avançados, como mísseis balísticos intercontinentais.
Segundo a Coreia do Sul, o ditador norte-coreano está levando consigo Jo Chun Ryong, encarregado de políticas de munições, Pak Thae Song, presidente do comitê de ciência e tecnologia espacial da Coreia do Norte e Kim Myong Sik, almirante da Marinha responsável pelo planejamento de submarinos com capacidade nuclear.
Especialistas acreditam que a Coreia do Norte teria dificuldade em adquirir tais avanços tecnológicos sem ajuda externa, embora não esteja claro se a Rússia partilharia suas tecnologias.
Jon Finer, o vice-conselheiro-chefe de segurança nacional do presidente dos EUA disse a repórteres que essa “pode ser a melhor e a única opção” para Moscou manter o esforço na guerra.
“Temos sérias preocupações sobre a possibilidade de a Coreia do Norte vender armas aos militares russos”, disse ele.
Mísseis lançados
Momentos antes do encontro entre Kim e Putin, a Coreia do Norte lançou dois mísseis balísticos, que caíram no mar, de acordo com autoridades do Japão e da Coreia do Sul.
Nas últimas semanas, a Coreia do Norte tem feito uma série de disparos de mísseis. Os testes foram vistos como resposta a exercícios militares feitos pela Coreia do Sul em conjunto com os Estados Unidos.
No fim de agosto, os militares liderados por Kim Jong-un simularam um ataque nuclear contra a Coreia do Sul. Segundo Pyongyang, o objetivo era preparar o exército para uma guerra contra os sul-coreanos.
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Vladimir Putin e Kim Jong-un se encontram na Rússia, em 13 de setembro de 2023 — Foto: Sputnik/Vladimir Smirnov via Reuters
Putin e Kim Jong-un: o que está por trás da aliança entre Rússia e Coreia do Norte
Entenda por que tanto Putin como Kim Jong-un enxergam benefícios em uma relação mais próxima
Vladimir Putin e Kim Jong-un têm muito em comum.
Nenhum dos dois aparece muito em público. O líder do Kremlin não saiu da Rússia este ano. No caso de Kim, já são quatro anos.
Tanto a Rússia quanto a Coreia do Norte foram acusadas de se tornarem “Estados desonestos”.
Ambos enfrentam pesadas sanções internacionais.
Os dois governos protestam contra a “hegemonia” dos Estados Unidos.
Muitas vezes, inimigos em comum podem aproximar líderes.
É o que acontece com Putin e Kim. Trata-se de uma união baseada não em sentimentalismo, mas na realidade geopolítica de 2023.
Ao contrário do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que certa vez declarou que ele e Kim Jong-un “se apaixonaram”, os líderes da Rússia e da Coreia do Norte são menos efusivos em suas demonstrações públicas de afeto.
Mas tanto Vladimir Putin como Kim Jong-un estão de olho nos benefícios potenciais de uma relação mais próxima.
Bastante a ganhar
O que o Kremlin ganha com isso?
Para começar, a Coreia do Norte tem uma enorme indústria de defesa com capacidade de produção em grande escala.
Com a guerra da Rússia na Ucrânia em curso, Pyongyang pode se tornar uma fonte inestimável de armamento para Moscou.
Washington suspeita que o Kremlin já esteja fazendo isso. Os Estados Unidos alegam que negociações sobre armas entre Rússia e Coreia do Norte têm “progredido ativamente”, com a Rússia supostamente buscando munições de artilharia.
Não há confirmação disso, no entanto, por parte das autoridades russas. Mas há muitos sinais nada sutis de que a Rússia e a Coreia do Norte pretendem aumentar a cooperação militar.
Em julho, Sergei Shoigu tornou-se o primeiro ministro da Defesa russo a visitar a Coreia do Norte desde o desmembramento da União Soviética, participando de eventos que marcaram o 70º aniversário do armistício coreano.
Kim Jong-un fez o papel de guia turístico mostrando a Shoigu uma exibição militar. O ministro da Defesa também deu a entender que exercícios militares conjuntos estão em preparação.
“Se eles estão à procura de armamento na Coreia do Norte, um dos países mais pobres e menos desenvolvidos do mundo, um país isolado, isso é na minha opinião a maior humilhação da propaganda da ‘grande potência’ russa”, afirma o ex-ministro das Relações Exteriores russo Andrei Kozyrev.
“Uma grande potência não iria à Coreia do Norte em busca de uma aliança ou de suprimentos militares”, diz Kozyrev, por ligação de vídeo desde os EUA, onde vive atualmente.
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Vladimir Putin e Kim Jong-un durante encontro em base de lançamento espacial russa, em 13 de setembro de 2023. Foto: Sputnik/Artem Geodakyan via Reuters
Sanções em xeque
Com sua invasão na Ucrânia, Vladimir Putin sinalizou determinação em reconstruir a ordem global de acordo com interesses da Rússia.
A cooperação militar com a Coreia do Norte pode ser outro sinal disso.
Um acordo de armas entre Moscou e Pyongyang representaria uma grande mudança. Até recentemente, a Rússia apoiava totalmente as sanções do Conselho de Segurança da ONU contra a Coreia do Norte devido ao seu programa de armas nucleares.
Entre outras coisas, essas sanções proíbem o comércio de armas com a Coreia do Norte.
“Moscou assinou essas resoluções do Conselho de Segurança”, lembrou aos leitores o tablóide russo Moskovsky Komsomolets na semana passada. Mas o texto acrescentava: “Não importa. Uma assinatura pode ser revogada”.
O jornal citou uma declaração do presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia, Fyodor Lukyanov; “Há muito tempo se coloca a questão: porque é que nós [Rússia] respeitamos estas sanções? Todo o sistema de relações internacionais está num estado de total pandemônio”.
“É claro que as sanções da ONU são legítimas. É difícil negar isso. Votamos a favor delas. Mas a situação mudou. Por que não revogar nosso voto?”
Isso seria música para os ouvidos de Kim Jong-un.
Juntos para sempre?
O que mais os norte-coreanos podem esperar da Rússia?
Quase certamente, ajuda humanitária para aliviar a escassez de alimentos na Coreia do Norte.
Há também especulações de que Pyongyang tem buscado tecnologia de ponta russa para satélites e uso militar, inclusive para submarinos com propulsão nuclear.
Após mais de um ano e meio de uma guerra que tem corrido terrivelmente mal para a Rússia, é muito possível que Moscou esteja precisando reabastecer seus estoques de munição.
Um acordo com Pyongyang poderia ajudar a Rússia alcançar esse objetivo. Mas isso não significa que, sem a ajuda da Coreia do Norte, a máquina de guerra da Rússia esteja prestes a parar.
“Putin não está desesperado”, acredita o ex-ministro das Relações Exteriores Andrei Kozyrev.
“Ele pode sustentar essa situação por muito tempo e pode se adaptar. Ele aprende todos os dias sobre como contornar sanções, como cooperar com a China, com a Coreia do Norte e com alguns regimes na África. Essa (relação) não é uma alternativa para o futuro. É uma alternativa para o presente. E talvez para os próximos anos.”
Essas reportagem foram inteiramente colhidas do Portal G1, com informações da BBC; não cabendo a nenhuma opinião do Site do Jornal Espaço, que se retém de qualquer dos textos e ou declarações citadas por quaisquer dos líderes ditadores e seus comandados.
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