Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço

Ontem à noite, meu filho de nove anos chegou da escola carregando uma pequena vela. Nela havia um nome: Yechiel Slutski. Nasceu em Bialystok, Polônia, em 1875. Assassinado em 1940. Tinha 65 anos. Ele era casado com uma mulher chamada Leah. Seus pais eram Ana e Esdras. Não sei se teve filhos. não sei se teve netos. Mas era um homem com um nome, um rosto, uma história, uma família. E depois não estava. Ontem à noite, meu filho acendeu aquela vela, e por alguns minutos quietos, a luz de Yechiel Slutski queimou em nossa casa.
É o que fazem os escolares israelenses todos os anos às vésperas da Yom HaShoah, Dia da Lembrança do Holocausto. Milhares de crianças trazem para casa milhares de velas, cada uma delas com o nome de uma pessoa real que foi assassinada. A iniciativa se chama Shem v’Ner, Nome e Vela. Seis milhões de judeus foram mortos. Seis milhões de luzes apagadas. Nenhum número de velas preencherá aquela escuridão. A população judaica global hoje é de 15,8 milhões, ainda abaixo do que era antes do Holocausto. O mundo não se recuperou. E agora, as últimas pessoas que podem dizer “eu estava lá” estão morrendo. Dentro de uma década, não restarão testemunhas vivas.
E tem gente, cada ano mais, que diz que não aconteceu.
Eis então a pergunta com a qual me vi sentado ontem à noite, observando aquela pequena chama piscar em minha mesa: O que significa apagar um nome? E o que Deus diz sobre aqueles que tentam?
A Torá não deixa essa pergunta sem resposta.
Há um verso que Yad Vashem, autoridade memorial do Holocausto de Israel, coloca no centro de sua missão de recuperar os nomes dos assassinados:
וְהָיָה הַבְּכוֹר אֲשֶׁר תֵּלֵד יָקוּם עַל־שֵׁם אָחִיו הַמֵּת וְלֹא־יִמָּחֶה שְׁמוֹ מִיִּשְׂרָאֵל וְ
O primeiro filho que ela tiver será contabilizado ao irmão morto, para que seu nome não possa ser apagado Yisrael.O.
Deuteronômio 25:6
O contexto é jurídico, sobre um homem que morre sem filhos, e a obrigação do irmão de levar o nome adiante. Mas o princípio é muito mais profundo do que o direito de família. Na Bíblia hebraica, ter seu nome apagado é o apagamento final. Não é apenas a morte. É o aniquilamento da memória. Está sendo desfeita.
Foi exatamente isso que os nazistas tentaram. Eles não assassinaram somente judeus. Construíram um sistema projetado para apagá-los, para reduzir os seres humanos a números tatuados nos braços, a cinzas, ao silêncio. Queriam que Yechiel Slutski desaparecesse tão completamente que ninguém nunca mais diria seu nome. A negação do Holocausto não é uma teoria da conspiração marginal sem vítimas. É a continuação daquele projeto por outros meios. Dizer que o Holocausto não aconteceu é assassinar os seis milhões pela segunda vez, terminar o que os nazistas começaram, apagar os nomes que tentaram destruir.
O próprio nome Yad Vashem vem do profeta Isaías:
וְנָתַתִּי לָהֶם בְּבֵיתִי וּבְחוֹמֹתַי יָד וָשֵׁם טוֹב מִבָּנִים וּמִבָּנוֹת שֵׁם עוֹלָם אֶתֶּן־לוֹ אֲשֶׁר לֹא יִכָּרֵת ו
Eu lhes darei, em Minha Casa E dentro de Meus muros, Um monumento e um nome Melhor do que filhos ou filhas. Dar-lhes-ei um nome eterno Que não perecerá.
Isaías 56:5
Deus está falando daqueles que se sentem esquecidos, daqueles que temem não deixar vestígios. A resposta dele não é um consolo. É uma promessa. Um lugar permanente. Um nome indestrutível. O povo que construiu o memorial do Holocausto de Israel escolheu este versículo porque ele capta exatamente o que eles entendiam ser sua missão: não a caridade para com os mortos, mas o cumprimento de uma obrigação divina. Deus não permite que nomes sejam apagados. E nem nós podemos.
É por isso que a vela importa ainda mais do que pode parecer.
A palavra hebraica para vela, o ner, carrega um peso enorme na tradição judaica. O livro de Provérbios diz:
נֵר יְהֹוָה נִשְׁמַת אָדָם חֹפֵשׂ כָּל־חַדְרֵי־בָטֶן נ
O sopro vital do homem é a lâmpada do Hashem Revelando todas as suas partes mais internas.
Provérbios 20:27
Uma vela não é apenas um adereço memorial. É uma afirmação sobre o que é o ser humano, uma chama acesa por Deus, carregando luz e calor, sempre alcançando o alto. Quando meu filho acendeu a vela de Yechiel Slutski, ele não estava realizando um ritual. Ele estava fazendo uma declaração: este homem tinha uma alma. Este homem foi iluminado por Deus. Este homem não pode ser desfeito.
Os sobreviventes estão quase sumindo. Daqui a pouco não vai sobrar ninguém pra dizer: Eu vi. Eu o vivi. Era de verdade. Isso não é motivo de desespero. É uma transferência de responsabilidade. As testemunhas estão entregando as velas para nós. Aos nossos filhos. A crianças de nove anos que chegam da escola carregando uma caixinha com o nome de um estranho, e que entendem, da forma que as crianças às vezes entendem as coisas com mais clareza que os adultos, que a iluminação importa.
Yechiel Slutski nasceu em Bialystok em 1875. Era filho de Ana e Esdras. Ele era marido de Lia. Foi assassinado em 1940. Ele tinha uma alma que Deus acendeu, e um nome que os homens tentaram destruir, e por 24 horas, esse nome foi falado em voz alta em minha casa, e uma chama queimará por ele em minha mesa.
Que não é nada. Isso é tudo.
Seu nome não será apagado. Não pelos nazistas. Não pelos negadores. Não pelo passar do tempo. Não sob nossa supervisão.
Por Sara Lamm
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