Destaque / Saúde / Epidemia / Febre do Nilo Ocidental: 8 perguntas e respostas sobre a doença

Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço

Vírus é transmitido principalmente pela picada de mosquitos infectados; entenda sintomas, diagnóstico, tratamento, risco de casos graves e o que se sabe sobre a circulação da doença no Brasil. — Foto: Getty Images via BBC

— Foto: Getty Images via BBC

A confirmação de casos da Febre do Nilo Ocidental em humanos neste mês no Brasil acendeu alerta para uma doença ainda pouco conhecida pela população do país.

Até agora, foram confirmados quatro casos no Brasil: dois em Santa Catarina e dois em São Paulo. Há ainda um caso em investigação no Piauí.

Em Santa Catarina, uma paciente morreu, e a investigação ainda busca determinar se a infecção pelo vírus foi a causa do óbito.

O vírus é transmitido principalmente pela picada de mosquitos infectados. Na maioria dos casos, a infecção não provoca sintomas ou causa apenas um quadro leve. Mas, em uma pequena parcela dos infectados, a doença pode evoluir para formas neurológicas graves.

A BBC News Brasil conversou com infectologistas para explicar o que é a doença, como ela é transmitida, quais são os sintomas, como é feito o diagnóstico e o que se sabe sobre a circulação do vírus no Brasil.

O que é a doença?

A Febre do Nilo Ocidental é uma infecção viral aguda causada pelo Vírus do Nilo Ocidental (VNO), que pertence à família dos flavivírus — grupo que também inclui os vírus responsáveis por doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

O vírus foi identificado pela primeira vez em 1937 em um distrito chamado West Nile, em Uganda, e por isso recebeu esse nome.

Hoje, porém, ele circula em várias regiões de praticamente todos os continentes, explica o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

“O que faz dele um vírus com tanta dispersão é que se trata de uma zoonose transmitida principalmente por aves migratórias. Os mosquitos que picam eventualmente essas aves também picam outros animais, como mamíferos, entre eles os seres humanos”, explica.

A infecção viral é transmitida pela picada de mosquitos infectados, em especial os da espécie Culex, conhecidos como pernilongos ou muriçocas, que adquirem o vírus ao se alimentar do sangue de aves infectadas.

“O Culex é aquele pernilongo que a gente conhece, não é o Aedes; é aquele que faz barulho, que faz o zumbido forte”, explica o médico.

Como ela é transmitida?

 — Foto: Getty Images

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Na natureza, o vírus circula de forma contínua entre esses insetos e as aves silvestres, enquanto seres humanos e equídeos são considerados hospedeiros acidentais.

“A via usual mais comum é a picada de um mosquito, principalmente do gênero Culex, que acabou de picar uma ave infectada, essas aves migratórias”, explica o infectologista.

“Então, o ciclo básico é ave, mosquito e pessoa, como acontece em outras arboviroses”, afirma. “Na verdade, o ser humano acaba entrando como um hospedeiro acidental porque o vírus no ser humano não tem alta circulação. Então é bem diferente, por exemplo, da dengue ou da Zika.”

O vírus não é transmitido de pessoa para pessoa por abraço, beijo, tosse ou espirro.

“Existem algumas formas de transmissão entre humanos, mas são muito incomuns, por exemplo, por transfusão de sangue, transplante de órgão ou transmissão materno-infantil durante a gestação”, diz Barbosa.

“Mas são muito raras e não têm um mecanismo que leve a uma circulação comunitária entre humanos desse vírus.”

Quais os sintomas?

Os quadros podem variar desde uma febre passageira até formas mais graves. Mas a grande maioria das infecções ocorre de forma assintomática.

Estima-se que cerca de 20% das pessoas infectadas desenvolvam manifestações clínicas.

“Para a grande maioria das pessoas que é contaminada, em 80% dos casos, a infecção geralmente é assintomática ou leva a sintomas muito leves,”, diz o professora da Unesp.

“O restante, 20%, terá uma febre de início agudo, dor de cabeça, dor muscular, náusea, vômito, diarreia, mas nada muito grave. A maioria das pessoas melhora espontaneamente”, diz o médico.

O problema é que um percentual pequeno, mas significativo, pode ter manifestações neurológicas graves, como encefalite.

“A doença neuroinvasiva acontece em menos de 1% dos casos. Mas, devido justamente à raridade desse evento, é pouco diagnosticada e acaba sendo pesquisada somente em quadros muito graves, em que você não tem uma síndrome neurológica com causa definida. Por isso, é uma doença também muito pouco conhecida.”

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é feito por avaliação clínica e exames laboratoriais, especialmente nos casos em que há suspeita da doença.

Por isso, pessoas que apresentem sintomas compatíveis e tenham histórico de exposição a áreas com presença do mosquito devem procurar um serviço de saúde.

Segundo o infectologista José Antônio Pozza, membro do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o diagnóstico da febre do Nilo Ocidental pode ser difícil porque os sintomas iniciais são muito semelhantes aos de outras arboviroses, como dengue e zika.

“São sintomas muito gerais, como febre, mal-estar, dor articular, dor muscular e náusea. Muitas vezes, isso se confunde com outras arboviroses.”

Além disso, alguns testes podem apresentar reação cruzada, dificultando a identificação do vírus. “Muitas vezes, a pessoa que tem febre do Nilo também apresenta resultado positivo para dengue ou zika”, explica.

O vírus é identificado por meio de testes de anticorpos, e existe a possibilidade de detectar diretamente o vírus por meio do RT-PCR.

Quando há comprometimento neurológico, a investigação se torna ainda mais complexa, já que é preciso considerar outras doenças que também podem provocar encefalite.

Não existe vacina nem tratamento antiviral específico disponível contra a doença.

“Não existe nenhum antiviral específico. O que a gente tem de tratamento são medidas de suporte, como hidratação e controle de sintomas”, afirma o infectologista.

Como a febre do Nilo Ocidental chegou ao Brasil?

A primeira vez que o Vírus do Nilo Ocidental (VNO) foi documentado nas Américas foi em Nova York, em 1999. Já a evidência em humanos no continente data do início dos anos 2000.

Os primeiros sinais de que o vírus havia chegado ao Brasil surgiram em 2009, quando foram detectados anticorpos em cavalos e galinhas no Pantanal.

O Ministério da Saúde registrou o primeiro caso de Febre do Nilo Ocidental no país em 2014, em um homem piauiense de 52 anos, morador de Aroeiras do Itaim (a 332 km de Teresina).

Pesquisadores isolaram o vírus da febre do Nilo Ocidental pela primeira vez no Brasil em 2018, extraído de um cavalo que morreu no Espírito Santo.

“E tinha uma proximidade evolutiva muito parecida com os vírus que a gente encontra na América do Norte, então pode ser que tenha vindo dali”, diz Alexandre Naime Barbosa.

“Mas talvez uma questão mais importante não seja saber de onde o vírus veio, mas saber que isso pode acontecer de forma frequente, porque aves migratórias são responsáveis pela dispersão de diversas doenças.”

O que sabemos sobre os casos no Brasil?

Em Santa Catarina, uma mulher de 77 anos morreu no município de Imbituba, no litoral sul do estado, a 90 km de Florianópolis.

O governo estadual também confirmou outro caso no município de Caçador, no Vale do Contestado, a cerca de 400 km da capital catarinense. O homem de 56 anos recebeu alta após internação.

A Secretaria de Estado da Saúde informou que há uma investigação epidemiológica em andamento para mapear com precisão os prováveis locais de infecção e detalhar a relação entre a circulação do vírus e os pacientes infectados.

“Diante da confirmação dos casos, a Secretaria está intensificando as ações de vigilância epidemiológica, laboratorial, animal e entomológica em Santa Catarina”, afirmou a pasta.

Em São Paulo, o primeiro caso é o de uma moradora de Ribeirão Preto, de 34 anos, com histórico recente de viagem à região amazônica. Ela já está curada.

O outro é de uma adolescente de 18 anos, na cidade de São José do Rio Preto, que está internada sob cuidados médicos. Ambos os casos seguem com o local provável de infecção sob investigação epidemiológica.

O Centro de Vigilância Epidemiológica de São Paulo informou que é a primeira vez que o estado registra casos humanos da doença e que eles estão sendo investigados pelas equipes de vigilância epidemiológica municipais e estadual para identificar o local provável de infecção.

O Ministério da Saúde, em conjunto com estados e municípios, mantém a vigilância epidemiológica e laboratorial para identificar casos e possíveis áreas de transmissão da Febre do Nilo Ocidental.

“A pasta acompanha as investigações, presta apoio técnico aos estados e prepara nota técnica com orientações atualizadas para reforçar a vigilância da doença no país”, diz a nota.

Para Antônio Pozza, uma das principais questões neste momento é entender a origem dos casos humanos registrados no país e verificar se há evidências de circulação do vírus entre animais, especialmente aves.

Isso é importante, diz ele, porque a identificação do vírus em aves e mosquitos poderia indicar a existência de um ciclo de transmissão sustentado no país — ou seja, quando um vírus ou doença se espalha entre pessoas de uma mesma comunidade.

 

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