Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço
A valorização do dólar pode tornar as exportações mais atrativas e pressionar os preços dos alimentos consumidos pelos brasileiros
Foto: Divulgação
Por Bruno Nadai
O Brasil está entre os grandes produtores e exportadores de alimentos do mundo, mas essa posição não impede que carne, frango e açúcar fiquem mais caros para o próprio consumidor brasileiro. Por trás dessa aparente contradição está um movimento acompanhado de perto por quem opera no mercado financeiro: a valorização do dólar e seus reflexos sobre as commodities.
Essa relação entre o câmbio e os preços no mercado interno ganhou destaque na Casa Clear 2026, onde Rafael Perretti, economista da Clear Corretora, concedeu entrevista ao InfoMoney. Em um cenário de maior incerteza fiscal e oscilações da moeda americana, o comportamento das commodities se torna uma variável importante tanto para consumidores quanto para investidores.
Alimentos sob pressão cambial
O risco de encarecimento dos alimentos está diretamente relacionado à participação do Brasil no comércio internacional. Como diversas matérias-primas são negociadas em moeda americana, a alta do dólar pode alterar a formação de preços e a rentabilidade das exportações.
“Muitas commodities exportadas pelo Brasil têm preços de referência em dólar. A desvalorização do real pode encarecer insumos importados ou cotados em dólar. Ao mesmo tempo, o dólar mais alto pode aumentar o valor em reais das vendas ao exterior e tornar a exportação mais atrativa do que a venda no mercado interno”, explica Perretti.
Entre os produtos sujeitos a essa dinâmica está a carne bovina. Isso porque a valorização cambial pode aumentar a remuneração em reais obtida pelos exportadores, tornando as vendas internacionais mais atraentes. Nesse cenário, os preços internos também podem sofrer pressão. “A gente pode olhar para as carnes, a partir do boi gordo, com o dólar alto os frigoríficos podem optar mais pela exportação da carne”, explica o economista.
Além da carne bovina, o frango também está exposto às oscilações das commodities agrícolas. O milho, utilizado na alimentação das aves, representa um dos componentes da cadeia produtiva. Dessa forma, sua valorização pode elevar os custos enfrentados pelos produtores. “Podemos olhar até mesmo para o frango, porque temos o milho como uma commodity que também pode sofrer alta de preço”, aponta Perretti.
O açúcar também integra a relação de alimentos que podem ser afetados pelo comportamento do câmbio. Assim, o impacto não se limita a uma única cadeia produtiva, alcançando diferentes produtos presentes no consumo cotidiano.
“Todos os produtos que têm relação com as exportações e suas cotações em dólar podem sofrer impactos significativos nos preços aqui no Brasil.”
Inflação e juros em alerta
Os efeitos da valorização cambial podem ultrapassar o preço dos alimentos e alcançar indicadores importantes da economia brasileira. Quando os custos de produtos influenciados pelo dólar aumentam, existe o risco de repasse ao consumidor, ampliando as pressões inflacionárias. “Um dólar elevado traz um carrego inflacionário”, alerta Perretti.
Essa combinação de dólar elevado e risco inflacionário também chama a atenção do mercado de juros futuros. Diante das preocupações com as contas públicas, os investidores passam a reavaliar suas expectativas para a trajetória das taxas de juros no Brasil. “A gente já viu os DI’s futuros acelerando seu movimento comprador vindo exatamente dessa expectativa”, relata.
Além disso, o aumento do risco fiscal pode elevar a remuneração exigida pelos investidores para financiar o governo. Esse movimento exerce pressão sobre os juros de mercado, enquanto a inflação representa um desafio adicional para a política monetária.
“Os investidores exigem mais do governo para comprar seus títulos, visto que ele está em um déficit elevado, em um gasto público muito elevado.”
Dessa maneira, a relação entre câmbio, inflação e juros forma um conjunto de fatores que exige atenção do mercado financeiro.
Uma pressão inflacionária persistente pode dificultar o espaço para reduções da Selic, embora as decisões dependam de outros indicadores econômicos.
“A gente tem um risco fiscal que traz uma elevação do dólar e traz uma inflação que puxa a nossa taxa de juros básica”, conclui.
Com informações InfoMoney
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