Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço
Documento integrado de órgãos federais ressalta alta probabilidade de um episódio muito forte, com aumento do risco de enchentes, estiagens, ondas de calor e queimadas

Imagem retirada do documento “Painel El Niño”, que representa a previsão climática sazonal por tercil • Créditos: Inmet/Painel El Niño
O fenômeno El Niño deve se intensificar ao longo do segundo semestre de 2026 e alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão, aumentando a probabilidade de eventos extremos em diferentes regiões do Brasil.
A avaliação consta no Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) em conjunto com outros órgãos federais, que alerta para possíveis impactos sobre o regime de chuvas, temperaturas, recursos hídricos, agricultura e risco de desastres naturais.
O documento é resultado de uma ação conjunta entre Inmet, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Segundo o boletim, há 100% de probabilidade de o El Niño permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com possibilidade elevada de atingir a categoria de muito forte, quando o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial supera 2°C.
Embora o fenômeno ocorra no Oceano Pacífico, a milhares de quilômetros do Brasil, seus efeitos alteram a circulação atmosférica em escala global. Na prática, isso modifica o comportamento dos ventos, o transporte de umidade e a formação de sistemas de chuva, favorecendo extremos climáticos, como enchentes, estiagens prolongadas, ondas de calor, queimadas e temporais.
Os especialistas ressaltam, porém, que o El Niño não determina sozinho as condições do tempo. Cada episódio possui características próprias e seus efeitos podem ser intensificados ou amenizados pela atuação de outros sistemas meteorológicos.
Sul deve concentrar os maiores impactos das chuvas
Historicamente, a região Sul é a que mais sente os efeitos do El Niño, principalmente durante a primavera e o verão.
A previsão indica maior frequência de chuvas acima da média, temporais, cheias de rios, enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. Segundo a Climatempo, os grandes acumulados registrados no Rio Grande do Sul durante julho, que provocaram enchentes em diferentes municípios, já representam os primeiros impactos do fenômeno neste ano.
O boletim do Painel El Niño reforça que a situação exige atenção especial porque, diferentemente do cenário observado em 2023, a região não apresenta déficit hídrico expressivo. Isso significa que o solo já possui maior disponibilidade de água, favorecendo o transbordamento de rios diante de novos episódios de chuva intensa.
Na agricultura, a maior disponibilidade de umidade pode beneficiar culturas de inverno em determinadas fases de desenvolvimento. Em contrapartida, o excesso de chuva aumenta o risco de doenças fúngicas, dificulta a entrada de máquinas nas lavouras e pode atrasar operações de manejo e colheita.
Norte pode enfrentar seca prolongada e rios mais baixos
Na região Norte, especialmente na Amazônia, o cenário esperado é praticamente o oposto.
A tendência é de redução das chuvas, temperaturas acima da média e atraso no estabelecimento da estação chuvosa em parte da Amazônia Legal. O boletim destaca que esse padrão favorece a persistência da estiagem, reduz a disponibilidade hídrica, aumenta o ressecamento da vegetação e amplia significativamente o risco de incêndios florestais.
Outro efeito esperado é a diminuição gradual dos níveis dos rios. Embora boa parte das bacias ainda apresente condições próximas da normalidade, os indicadores mostram avanço da estiagem em diferentes sub-bacias da Amazônia. Segundo os órgãos responsáveis pelo monitoramento, caso não haja reposição significativa das chuvas nas próximas semanas, a resposta hidrológica tende a se intensificar, afetando a navegação, o abastecimento de água e atividades econômicas dependentes dos rios.
A Climatempo também aponta que o Norte deverá registrar temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média principalmente em Roraima e no norte do Amazonas.
Nordeste deve ter menos chuva e maior pressão sobre reservatórios
No Nordeste, os principais impactos tendem a ocorrer durante o verão e o outono, especialmente na porção norte da região. A expectativa é de redução da duração da estação chuvosa, prolongamento da estiagem, temperaturas acima da média e menor disponibilidade de água em rios e reservatórios.
O Painel El Niño mostra que a situação atual da seca na região já é mais preocupante do que a observada em junho de 2023. Enquanto naquele ano a seca moderada atingia cerca de 10% da região, atualmente essa condição alcança aproximadamente 40%, indicando maior vulnerabilidade diante da intensificação do fenômeno. Além disso, muitas áreas ainda não recuperaram completamente suas reservas hídricas, o que pode agravar problemas de abastecimento e aumentar as perdas na agricultura dependente da chuva.
Centro-Oeste pode registrar calor intenso e aumento das queimadas
No Centro-Oeste, o El Niño costuma atrasar o início da estação chuvosa, prolongando o período seco. O cenário previsto inclui temperaturas elevadas, baixa umidade relativa do ar e maior risco de queimadas e incêndios florestais.
Segundo o boletim técnico, a combinação entre chuva abaixo da média e calor acima do normal favorece ondas de calor e amplia o potencial de propagação do fogo, principalmente em áreas de vegetação nativa e produção agropecuária. Apesar disso, a colheita do milho e do algodão de segunda safra tende a ser favorecida pelo predomínio do tempo seco.
Sudeste deve enfrentar calor acima da média
Na região Sudeste, os efeitos mais frequentes envolvem temperaturas elevadas, ondas de calor mais duradouras e irregularidade das chuvas, sobretudo no início da estação chuvosa.
Embora o El Niño não tenha relação direta com o volume de precipitação na região, o aumento das temperaturas eleva a evaporação e reduz a umidade do solo. Caso as chuvas da primavera atrasem, o quadro de seca pode se intensificar rapidamente, segundo o Painel El Niño.
A Climatempo acrescenta que o calor persistente também deve aumentar a demanda por água e energia elétrica durante os próximos meses.
Órgãos reforçam monitoramento e medidas preventivas
Diante da possibilidade de um episódio muito forte, os órgãos que integram o Painel El Niño recomendam acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas, hidrológicas e geológicas, além da atenção aos avisos e alertas oficiais.
À população, a orientação é manter atualizado o cadastro para recebimento de alertas da Defesa Civil, conhecer as áreas de risco e as rotas de fuga da própria região e adotar medidas de autoproteção sempre que houver previsão de eventos extremos. As instituições informaram que continuarão divulgando boletins periódicos para subsidiar ações de prevenção, preparação e gestão de riscos ao longo da evolução do fenômeno.
Agosto começa com maior risco de El Niño forte, diz ONU
Perigo de intensidade deve se estender até outubro e remodelar agendas no campo e na agroindústria

A Agência da ONU alerta que a intensidade do El Niño pode piorar entre agosto e outubro • Foto: Divulgação/ONU
O fenômeno El Niño continua se intensificando e deve atingir intensidade forte entre agosto e outubro de 2026, influenciando os padrões climáticos em diversas regiões do planeta. A avaliação é da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU.
Em comunicado, a organização declarou na sexta-feira (31) que há uma maior probabilidade de temperaturas acima da média global e mudanças significativas no regime de chuvas nos próximos meses.
Segundo a atualização climática sazonal da entidade, o aquecimento do Oceano Pacífico será acompanhado por um provável desenvolvimento do Dipolo Positivo do Oceano Índico, combinação que pode ampliar os riscos de secas, enchentes e incêndios florestais, especialmente em países ao redor do Oceano Índico.
A temperatura da superfície do Atlântico Tropical também deve permanecer acima da média.
A OMM projeta que as anomalias de temperatura da superfície do mar na região central e leste do Pacífico equatorial ultrapassem 2,9°C entre agosto e outubro, indicando um evento forte de El Niño.
Em comunicado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o fenômeno “já está dentro de casa e aumentando o calor”, ao destacar que o El Niño se soma ao aquecimento global provocado pelas emissões de combustíveis fósseis, agravando ondas de calor, incêndios e o aquecimento recorde dos oceanos.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, ressaltou que as previsões oferecem uma oportunidade para governos e comunidades anteciparem riscos e adotarem medidas preventivas.
Segundo ela, o fenômeno se desenvolve em um contexto de temperaturas oceânicas sem precedentes, reforçando a necessidade de que informações climáticas cheguem rapidamente aos setores mais vulneráveis, como agricultura, saúde e defesa civil.
A organização também informou que está ampliando a coordenação internacional e os serviços de alerta precoce para apoiar governos, agências humanitárias e atividades sensíveis ao clima diante dos impactos esperados.
O El Niño é um fenêmeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial.
Os episódios costumam ocorrer a cada dois a sete anos, duram entre nove e doze meses e normalmente atingem seu pico entre novembro e fevereiro, com efeitos mais intensos sobre o clima global no ano seguinte ao seu desenvolvimento.
A intensidade e os impactos variam de acordo com a interação com outros sistemas climáticos e as características de cada evento
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