quinta-feira - 30 - julho - 2026

Mundo / Europa / Megaincêndios: Incêndios queimam com a intensidade de ‘bombas atômicas’: Europa entra em uma nova era de megaincêndios

Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço

Tempestades de fogo, evacuações em massa e calor extremo marcam uma temporada histórica de incêndios
Bombeiros tentam extinguir incêndios florestais usando um caminhão-pipa perto de Le Porge, no sudoeste da França

Aquecimento global e eventos climáticos extremos estão transformando os incêndios na Europa. Foto: Romain Perrocheau/AFP/Getty Images via CNN Newsource

Os vastos incêndios que devastam o sudoeste da França queimaram com tanta intensidade que criaram uma poderosa tempestade gerada pelo próprio fogo. Esse fenômeno raro, às vezes observado em megaincêndios que atingem os Estados Unidos e o Canadá, era inédito na França até agora — e é apenas um dos sinais de que a Europa está entrando em uma nova era de incêndios florestais, afirmam especialistas.

A Europa sempre conviveu com incêndios florestais, mas eles estão se tornando cada vez mais extremos à medida que a crise climática se intensifica. Nesta semana, bombeiros na França e na Espanha tentaram controlar focos mais ferozes e imprevisíveis do que qualquer outro enfrentado anteriormente.

Na quarta-feira, autoridades da Espanha e da França informaram que alguns incêndios haviam sido estabilizados, mas alertaram que a situação ainda pode piorar em meio à quarta onda de calor registrada no continente somente neste ano.

A União Europeia também advertiu sobre o risco de novos incêndios mais a leste, especialmente na Grécia e na Itália.

Tudo isso ocorre após a temporada recorde de incêndios do ano passado na Europa. Especialistas afirmam que o continente está se juntando a uma longa lista de regiões — da Sibéria à Amazônia — que agora enfrentam temporadas consecutivas de incêndios extremos.

“Entramos na era dos incêndios que não podem ser apagados”, disse Víctor Resco de Dios, professor de engenharia florestal e mudanças globais da Universidade de Lleida, na Espanha. “São incêndios que queimam com a intensidade de várias bombas atômicas.”

Os incêndios na França já devastaram mais de 160 mil hectares, tornando-se os maiores já registrados no país, e ainda restam meses pela frente na temporada de queimadas.

“A situação que enfrentamos hoje é a mais difícil já registrada, a mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial”, afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron, durante visita a Bordeaux na segunda-feira. Ele classificou os incêndios como “totalmente sem precedentes”.

Um dos exemplos mais impressionantes foi o surgimento das chamadas nuvens de fogo, ou pyrocumulonimbus, que se formaram durante o fim de semana na região de Gironde, próxima a Bordeaux, segundo autoridades locais.

Essas nuvens surgem quando incêndios particularmente intensos geram uma coluna de calor extremo que sobe rapidamente para camadas mais frias da atmosfera, condensando-se em gigantescas nuvens de tempestade. Elas podem criar seus próprios ventos, chuva e raios, transformando incêndios em tempestades de fogo autoalimentadas, erráticas e imprevisíveis.

O fenômeno é bem documentado na Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos — os incêndios de Los Angeles em 2025 chegaram a produzir um raro tornado de fogo (firenado) — mas permanece incomum na Europa.

O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo informou que ainda não pode confirmar se este foi o primeiro pyrocumulonimbus da França. “No entanto, se confirmado, seu desenvolvimento destacaria a intensidade excepcional do incêndio atual e as extraordinárias condições atmosféricas sob as quais ele está queimando”, disse Francesca Di Giuseppe, coordenadora de previsões de incêndios da instituição.

A escala dos incêndios também impressiona, segundo especialistas. Grandes extensões de terra foram consumidas pelas chamas na França e na Espanha, que chegaram a solicitar ajuda da União Europeia.

“Uma crise de incêndios florestais sincronizada e multinacional é algo raro na Europa”, afirmou Stefan Doerr, diretor do Centro de Pesquisa em Incêndios Florestais da Universidade de Swansea, no País de Gales.

As chamas avançaram próximas a cidades importantes, incluindo um incêndio que devastou a província montanhosa de Ávila, a oeste de Madri, e que, segundo as autoridades, já é o maior já registrado na Espanha.

“O incomum é o número atual de incêndios destrutivos: incêndios que se espalham rapidamente, sobrecarregam os bombeiros e obrigam comunidades inteiras a evacuar”, explicou Guillermo Rein, professor de ciência dos incêndios no Imperial College London.

Mais de 300 mil pessoas já foram evacuadas na França e na Espanha, embora algumas tenham começado a retornar para casa na quarta-feira.

Os incêndios florestais também se intensificaram na Turquia. Autoridades informaram que as chamas se espalharam por áreas agrícolas e florestais da província de Mugla, na costa do mar Egeu. Na vizinha Grécia, três bombeiros morreram: dois combatendo incêndios em Creta e um terceiro enfrentando um foco na região do Peloponeso, segundo a Reuters.

Especialistas afirmam que extinguir completamente incêndios dessa magnitude é praticamente impossível até que o combustível natural se esgote ou que chuvas persistentes cheguem, independentemente da quantidade de recursos mobilizados.

“Na Austrália e em partes dos Estados Unidos e do Canadá, existe uma expectativa e uma aceitação geral de incêndios florestais fora de controle”, disse Doerr. “Na Europa, ainda prevalece a ideia de que esses incêndios podem ser completamente evitados.”

Por que esses incêndios são tão graves?

Cada incêndio florestal é complexo e único, influenciado por fatores como manejo do solo, relevo e recursos de combate ao fogo. Mas cientistas apontam que as condições climáticas extremas, agravadas pelas mudanças climáticas, têm sido um dos principais motores dos incêndios europeus.

O aquecimento global está provocando oscilações cada vez mais intensas entre períodos extremamente úmidos e extremamente secos. Trata-se de um “efeito chicote”, explicou Matthew Jones, pesquisador da Escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.

O inverno passado foi excepcionalmente chuvoso na França e na Espanha, favorecendo o crescimento acelerado da vegetação. Em seguida, o clima mudou drasticamente. Desde maio, a Europa Ocidental tem sido atingida por sucessivas ondas de calor severas, que ressecaram a paisagem.

Esse calor representou “a estalada do chicote” nesse processo, transformando a vegetação densa em combustível altamente inflamável, explicou Jones.

“Cenários dantescos”

As autoridades afirmam que o combate completo aos incêndios atuais pode levar meses, mas seus impactos permanecerão por muito mais tempo.

A fumaça produzida pelos incêndios cria céus poluídos e perigosos para a saúde. Estima-se que a poluição causada por incêndios florestais provoque mais de 100 mil mortes por ano em todo o mundo.

Há também os prejuízos econômicos. As chamas atingem áreas próximas de grandes cidades europeias, afetando destinos turísticos, regiões produtoras de vinho e importantes centros estratégicos.

Além disso, esses incêndios podem alterar profundamente a relação das pessoas com o território onde vivem, à medida que passam a conviver com a ameaça constante de incêndios incontroláveis.

Para o futuro, cientistas afirmam que devemos esperar incêndios mais frequentes e mais intensos, na Europa e em outras partes do mundo, enquanto a humanidade continuar queimando combustíveis fósseis e elevando as temperaturas globais.

“É difícil prever até onde isso pode chegar”, disse Resco de Dios. “Em breve, poderemos não conseguir mais descartar cenários dantescos como os observados na Califórnia ou na Austrália, com incêndios ou complexos de incêndios atingindo centenas de milhares de hectares ou até mesmo um milhão de hectares.”

 

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