Publicado por: Marcelo José de Sá Diretor-Presidente e Editor-Geral do Site do Jornal Espaço

Foto: Acre, Israel (Shutterstock.com)
Todo palestrante motivacional vende a mesma fórmula cansada: visualize o sucesso, trabalhe mais, mantenha-se positivo, e a vitória será sua. A indústria de autoajuda convenceu milhões de pessoas de que o fracasso não passa de um revés temporário na inevitável marcha rumo ao triunfo. Tratamos portas fechadas como obstáculos a serem superados, e não como oportunidades para explorar.
A Bíblia oferece uma compreensão radicalmente diferente.
A história de José é uma das narrativas de sucesso mais dramáticas das Escrituras. Vendido como escravo por seus irmãos, ele de alguma forma se torna o segundo no comando do Egito, salva o mundo antigo da fome e se reconcilia com sua família. A Torá registra sua conquista com um versículo peculiar:
וַיְהִי יְהֹוָה אֶת־יוֹסֵף וַיְהִי אִישׁ מַצְלִיחַ וַיְהִי בְּבֵית אֲדֹנָיו הַמִּצְרִי׃
Hashem estava com Yosef, e era um homem bem-sucedido; e ficou hospedado na casa de seu mestre egípcio.
Gênesis 39:2
Mas algo nesse versículo exige nossa atenção. Por que declarar ambas as condições? Se Deus estivesse com José, seu sucesso não é evidente? Se José teve sucesso, isso não significa automaticamente que Deus estava com ele? A redundância sugere que estamos perdendo algo fundamental sobre a natureza do sucesso em si.
O rabino Simcha Bunim de Peshischa, escrevendo na Polônia do século XIX, ofereceu uma explicação. Buscamos a Deus quando as coisas desmoronam. O diagnóstico volta terminal, o negócio desmorona, a criança se rebela — e de repente lembramos de orar. Mas quando tudo sai conforme o plano, esquecemos. Damos crédito à nossa inteligência, nossa ética de trabalho, nosso planejamento estratégico. Quando alcançamos a prosperidade, muitas vezes esquecemos que Deus permanece como a fonte.
José, no entanto, manteve sua conexão com Deus tanto no sucesso quanto no fracasso. A dupla declaração do versículo captura essa rara conquista espiritual. Ele mantinha seu medo do Céu e a crença em Deus, não importava o que acontecesse. Tanto quando ele estava em apuros quanto quando era bem-sucedido.
Mas o rabino Ephraim Mirvis, Rabino-Chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Comunidade, sugere uma leitura totalmente diferente, uma que desafia tudo o que pensamos saber sobre sucesso e fracasso.
E se Deus puder estar com alguém que está falhando? E se as portas batendo na nossa cara estiverem realmente abrindo caminhos que nunca imaginamos?
O rabino Mirvis aponta para a oração que recitamos a cada mês antes do novo mês. Não pede apenas uma vida onde nossos pedidos sejam atendidos. Especifica: “Uma vida em que os pedidos do nosso coração serão atendidos para o bem.” Essa redação reconhece uma realidade preocupante — não temos ideia de como é o sucesso genuíno. Pedimos promoções que nos esmagariam, relacionamentos que nos destruiriam e oportunidades que, no fim, levariam à nossa ruína. Confundimos a porta brilhante com a porta certa. Confundimos o que queremos com o que precisamos.
O rabino Mirvis demonstra esse princípio através da biografia de Joseph com brutal clareza. A tentativa de fratricídio por seus irmãos, ser vendido como escravo, as falsas acusações da esposa de Potifar, anos apodrecendo em uma masmorra egípcia — toda catástrofe aparente o posicionava para seu propósito final. Se seus irmãos o tivessem recebido em casa após seus sonhos, ele teria permanecido um filho privilegiado em Canaã. Se Potifar acreditasse em sua integridade, teria permanecido como servo doméstico. As falhas não eram obstáculos ao seu destino. Eles eram o mecanismo de seu destino.
O versículo “Hashem estava com José, e ele era um homem bem-sucedido” contém ambas as verdades simultaneamente. Deus permaneceu com José em todas as falhas e humilhações. Deus também fez José bem-sucedido. Mas o sucesso veio através dos fracassos, não apesar deles. A cela da prisão não era um desvio do plano de Deus — era o plano de Deus. A traição não foi uma interrupção da providência divina — foi providência divina.
A compreensão do Rabino Mirvis transforma a forma como lemos a história de Joseph. Quando a Torá relata que “Hashem estava com José” durante sua escravidão e prisão, não está oferecendo consolo para contratempos temporários. É revelador que Deus orquestra portas fechadas tão metódicamente quanto abertas. O versículo esclarece que José compreendeu essa realidade. Ele sentiu a presença de Deus na masmorra da mesma forma que sentiu no palácio do Faraó. Ele reconheceu que o fosso e a prisão eram a sala de aula de Deus, não o castigo de Deus.
Winston Churchill, que conduziu a Grã-Bretanha em sua hora mais sombria, compreendia um pouco desse paradoxo. “Sucesso”, observou ele, “é ir de fracasso em fracasso sem perda de entusiasmo.” Churchill conhecia o fracasso pessoalmente — sua carreira política incluiu múltiplos desastres antes de seu auge chegar, quando a Grã-Bretanha mais precisava dele. Seus fracassos anteriores o posicionaram de forma única para seu propósito final.
Os Sábios ensinam que tudo o que Deus faz é para o bem, mas não prometem que o bem será imediatamente aparente ou confortável. A história de José ilustra esse ensinamento com particular força. Seus irmãos pretendiam trair sua traição para o mal, mas, como Joseph reconhece depois, Deus quis que fosse para o bem — para salvar muitas vidas. Os dezessete anos de sofrimento não eram pré-requisitos infelizes para o sucesso. Eles foram o campo de treinamento que o moldou no líder que o Egito e sua família precisavam.
Oramos por pedidos respondidos “para o bem” porque nos falta sabedoria para distinguir entre sucesso e fracasso, entre portas abertas e fechadas, entre o que nos construirá e o que nos quebrará. O amor de Deus às vezes se manifesta em orações não respondidas, em portas fechadas, no que erroneamente rotulamos como fracassos.
Joseph entendeu que a presença de Deus não garante um caminho tranquilo. Isso garante propósito. A mesma presença divina que o elevou à direita do Faraó o sustentou na escravidão e na prisão. Seu sucesso não era medido pelo avanço constante, mas por manter sua integridade e conexão com Deus, independentemente das circunstâncias. A linguagem redundante da Torá — “Hashem estava com José e ele era um homem bem-sucedido” — captura ambas as realidades porque são inseparáveis. O verdadeiro sucesso significa reconhecer a mão de Deus em todas as circunstâncias, não apenas nas agradáveis.
Esse reconhecimento não torna o fracasso indolor. José implorou aos irmãos enquanto eles o vendiam como escravo. Ele sofreu angústia genuína na prisão. A Bíblia não o apresenta como um estoico impassível às circunstâncias. Mas ele mantinha algo mais valioso do que otimismo — mantinha a confiança de que Deus permanecia com ele e que esses aparentes desastres serviam a propósitos além de sua compreensão.
Sua porta fechada pode ser a melhor coisa que já aconteceu com você. A rejeição, a perda, a humilhação—isso pode ser Deus te posicionando para algo que você ainda não consegue imaginar. Joseph não poderia imaginar, sentado naquela cela, que estava sendo preparado para salvar o mundo antigo da fome. Ele simplesmente sabia que Deus não o havia abandonado apesar de todas as indicações em contrário.
Essa é a verdade oculta do versículo. Deus esteve com José tanto no fracasso quanto no sucesso. O ensinamento do Rabino Mirvis nos mostra que reconhecer a presença de Deus tanto no triunfo quanto no desastre transforma a forma como enfrentamos nossas próprias portas fechadas. O que parece fracasso pode ser preparação divina para propósitos além da nossa compreensão.
Shira Schechter
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